A Morte, a donzela e a tortura

terça-feira, 8 de julho de 2008

a morte e a donzela poster Isabel já havia me dito que o filme A Morte e a Donzela era muito bom, por isso quando vi o filme em uma destas promoções de R$ 7,99 resolvi comprá-lo, pois é quase o preço de uma locação.

No filme, dirigido por Roman Polanski (O Bebê de Rosemary), o filme se passa em um país da América do Sul, que saiu de uma ditadura. Neste cenário de recém conquistada democracia nos conhecemos Paulina Escobar, interpretada por Sigourney Weaver (da série Alien), uma mulher que vive com medo, pois acha que qualquer pessoa chegando será um agente do governo querendo sequestrá-la.

 

Logo no início do filme ficamos sabendo que seu marido, Geraldo (interpretado por Stuart Wilson, de A Máscara do Zorro) se tornará o representante do governo na busca pelos torturadores da antiga ditadura. Para ela isso é ruim, pois sabe que é apenas um show para a imprensa e que ninguém será realmente responsabilizado (assim como vemos diversas vezes no Brasil).

 

Neste mesmo dia Geraldo chega atrasado em casa, de carona com um estranho, que Paulina tem certeza ser a pessoa que lhe torturou e estuprou diversas vezes quando esteve presa. É neste momento, quando Geraldo e seu companheiro, Dr. Miranda (Ben Kingsley, de Gandhi) estão distraídos que Paulina rouba o carro dele e depois volta, para conseguir dele a confissão de seus atos a qualquer preço.

 

a morte e a donzela foto Para fazer Miranda confirmar o que fez Paulina utiliza várias técnicas que claramente aprendeu durante seu tempo de cárcere. Mas o que deixa o filme ainda mais tenso é que ela nunca viu a cara de seu torturador, tendo reconhecido apenas sua voz. Isso e a constante negação do personagem de Kingsley fazem você sempre se perguntar se ele fez isso ou não. Também não sabemos até que ponto o marido dela não o está ajudando, querendo apenas acabar com toda aquela loucura.

 

O filme é muito tenso e sempre demonstra sua origem do teatro, pois o cenário é pequeno e o número de personagens do filme se resume ao trio principal. É mais um exemplo da competência do diretor francês para filmes psicológicos.

 

O roteiro do filme é baseado na peça escrita por Ariel Dorfman, um argentino que trabalhava no governo do presidente Salvador Allende no Chile, quando foi exilado pelo ditador Pinochet. Portanto foi uma pessoa que acompanhou acontecimentos como o do filme de perto, mesmo que não tenha sido torturado.

 

O filme e a maneira como a torturada tratam a pessoa que lhe torturou nos faz pensar qual pena seria aceitável para um crime como este. A tortura é cruel e permanente, transformando para sempre a existência de uma pessoa. Mesmo que depois de anos uma vítima de tortura volte a ter uma vida normal, ela nunca poderá tirar aquelas imagens da cabeça.

 

Na história criada por Dorfman a personagem de Pauline era sempre torturada ao som da música A Morte e a Donzela, de Schubert. Isso fez com que ela jogasse sua coleção inteira de músicas do compositor fora. No filme o marido diz que ela já saiu no meio de um jantar porque a música estava sendo tocada no ambiente. Isso é um comportamento comum para uma pessoa com este tipo de experiência.

 

O pior é que toda a evolução que nossa sociedade teve não foi o suficiente para acabar com este tipo de prática. Se em países que passam por guerras civis, como Uganda, a prática é considerada normal, inclusive contra crianças, outros países que por um lado condenam a tortura, como os EUA tiveram eventos como os relatados na prisão de Guantanamo.

 

tortura36 Acredito que assim como eu, a maior parte das pessoas abomina este tipo de ato, mas até mesmo em nosso país este tema não é tratado com seriedade. A ditadura militar no Brasil acabou há mais de 20 anos e nunca vimos uma real ação para que os criminosos daquele tempo fossem levados a justiça. Agora a maior parte deles está em idade avançada (o que não os redime dos seus crimes) ou morta e as pessoas que clamam por justiça terão que enfrentar seus demônios sozinhas.

 

Ao mesmo tempo me pergunto que país do mundo fez alguma coisa para punir antigos torturadores de tantas ditaduras que ocorreram entre os anos 60 e 70. Parece que a regra é muda quem manda mas não se pune quem fez qualquer coisa errada.

 

Infelizmente não existe no You Tube um trailer do filme, mas caso você dê de cara com o filme assista, pois será uma excelente experiência.

1 comentários:

Têmis 9 de julho de 2008 11:23  

Boa sugestão... também o tenho na minha pequena coleção de DVDs.

O complicado é ver Ben Kingsley em um papel diferente de Gandhi. É impressionante como realmente alguns personagens "colam" nos atores e é difícil tirar depois.

Grande abraço.

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